Atleta depois dos 60 anos

1m50 de altura, 54 quilos, mãe de dois filhos, boliviana de Cochabamba, dentista aposentada, jogadora de basquete e 64 anos de idade. Essa é Miriam Perez, frequentadora há 20 anos do Parque do Ibirapuera.

Dona Miriam não falta um domingo. Todo fim de semana ela coloca seu tênis de cano alto, boné, blusas e calças folgadas e vai para o Ibirapuera jogar basquete. E ela não se contenta com duas horinhas de atividade física. Geralmente, ela fica das 10h às 17h no local. Muitos atletas já a conhecem e sempre que a encontram cumprimentam-na carinhosamente como “tia”.

A paixão é tão grande pelo esporte que nem quando seu aniversário é no domingo ela deixa de jogar no parque. Seus filhos já tiveram que levar o bolo e cantar parabéns para a mãe no meio das quadras de basquete. Outro dia, ela ficou tanto tempo jogando que o Ibirapuera acabou fechando. E como não havia outra saída, ela, com a ajuda dos demais jogadores, teve que pular as grades do portão de entrada para sair do local. Foi quando torceu o tornozelo e ficou alguns dias sem poder fazer atividade física. 

Dona Míriam é uma das mais velhas jogadoras e uma das poucas mulheres que participam dos “rachas” – peladas ou jogos de ruas – no parque. Mas, segundo ela, a quantidade de mulheres nas quadras do Ibirapuera cresceu bastante nos últimos anos, apesar do número de homens ainda ser superior. Houve anos em que ela era a única do sexo feminino em quadra.

Há alguns anos, Miriam começou a perder a visão de um dos olhos. Quando foi ao médico, diagnosticaram o glaucoma, doença ocular que provoca danos no nervo óptico podendo ocasionar cegueira e que não tem cura. Aos poucos ela foi perdendo a visão nos dois olhos. Teve que se aposentar por invalidez devido à doença, mas apesar de não enxergar 100%, o basquete ainda está bem inserido na sua vida. E ela consegue se virar muito bem dentro de quadra.

Além do problema com os olhos, Miriam já machucou os dedos da mão, o tornozelo e o nariz. Neste último, ela levou uma cotovelada de um dos jogadores e acabou com o nariz membro. Ela foi ao pronto socorro onde imobilizaram o nariz e, consequentemente, teve que ficar afastada dos “rachas” por alguns meses. Porém, logo depois dos dias de recuperação, ela voltou ao parque.

Apesar de morar há muitos anos em São Paulo, a boliviana ainda tem dificuldade para entender algumas palavras em português. Mas isso não a atrapalha no esporte. Aliás, nem a ela e nem a vários outros estrangeiros – norte-americanos, francese, coreanos e japoneses – que passam diariamente pelo parque. Dentro de quadra todos se entendem por meio do basquete e dos gestos.

Ela não pára um minuto dentro de quadra. Pula, grita, briga, chama a atenção dos parceiros de time, marca, dribla, arremessa e comemora em todos os jogos, sendo de meia quadra ou quadra inteira. Correndo de um lado para o outro, Dona Miriam tem um físico que causa inveja a muitos jovens.

Nem a idade, as fraturas no dedo e no tornozelo e nem o glaucoma a impedem de fazer o que mais gosta: jogar basquete aos domingos. Além disso, ela não se intimida com o tamanho dos músculos, a habilidade, a altura e a juventude dos outros jogadores. Ela simplesmente se joga nos dribles, passes e arremessos dentro de quadra. “É a única coisa que me relaxa. Acho que todo o meu estresse eu jogo aqui em quadra”, afirma ela.

Miriam começou a jogar basquete quando jovem na Bolívia. Ela integrou alguns times e já participou de torneios regionais. Mas o pai não a apoiava muito, porque dizia ser um esporte masculino. Ele não gostava de ver a filha usando roupas folgadas e tênis desgastados devido a prática esportiva.  Mas Miriam continuou a jogar.

Quando a faculdade começou a ficar puxada e difícil, ela teve que parar de jogar basquete.  Mas sempre que tinha um tempo, voltava para as quadras. Foi assim na época de jovem e é assim até hoje. “Ainda quero jogar por mais muitos anos”.

 Mas Dona Miriam não é a única moradora da capital com mais de 60 anos a praticar esportes nos espaços públicos e privados da cidade. Uma pesquisa realizada pelo programa Agita São Paulo mostrou que mais de 50% das mulheres entre 30 a 69 anos fazem atividades físicas no Brasil.

E já existem projetos para atividades físicas voltados para a terceira idade. Mas esse é assunto para um próximo post! 

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